Ensinar a cuidar do meio ambiente é um dos desafios da educação. A escola e os educadores são fundamentais no processo de cuidado com o Planeta Terra e na formação de seres humanos conscientes, participativos e colaborativos com o meio ambiente.

Hoje, quase 60% dos territórios estão sob risco de desertificação e centenas de ecossistemas estão ameaçados devido à degradação humana. Para o teólogo e escritor Leonardo Boff, estes e outros fenômenos são respostas da Terra. “A atividade irresponsável humana não se preocupou em garantir a sustentabilidade da natureza e da Terra como um planeta vivo. Cuidar é uma relação amistosa, protetora e não agressiva para com a natureza e a Mãe Terra” afirmou o escritor.

Leonardo Boff é um dos palestrantes do 5º Congresso Internacional Marista de Educação, que acontecerá entre os dias 11 e 14 de outubro de 2016, em Recife-PE. “Educação, cuidado e ecologia” serão os temas tratados pelo estudioso. Confira a entrevista exclusiva:

Qual a importância do 5º Congresso Internacional Marista de Educação para a educação no Brasil e no mundo?

Leonardo Boff: Tudo passa pela educação, pois é ela que forma as gerações para a sociedade e é por ela que elaboramos um sentido para vida e damos um rumo para sociedade. O mundo não seria humano se não tivesse um permanente e diuturno processo de educação. Educação é mais que repasse de informações acumuladas pela humanidade. Como dizia Hannah Arendt: “podemos nos informar a vida inteira sem nunca nos educarmos”.

Como acontece o tripé Educação, Cuidado e Ecologia?

LB: Hoje, dada a degradação do sistema-Terra e do sistema-vida, importa incorporar, urgentemente, o tema do cuidado. Cuidar é uma relação amistosa, protetora e não agressiva para com a natureza e a Mãe Terra. Ou cuidamos de tudo o que existe e vive ou podemos ir ao encontro do pior. Daí a necessidade de, desde os primeiros anos de vida, integrar o cuidado para com todas as coisas. Assim elas são preservadas para nós e para as futuras gerações. A ecologia, mais que uma técnica de gerenciamento de bens e serviços naturais, é uma arte, um novo estilo de relacionamento com a natureza. A ecologia é um novo paradigma, vale dizer, uma constelação de ideias, projetos, instituições e sonhos que organizam uma sociedade. Hoje devemos nos comportar em consonância com os limites físicos da Mãe Terra, seus ritmos e ciclos. Só assim ela continuará a nos dar tudo o que precisamos para viver.

Como fazer com que a sustentabilidade faça parte da educação?

LB: A educação deve incorporar a visão de que devemos garantir os meios para que tudo possa continuar a existir, a se reproduzir e continuar dentro do processo de evolução. Uma sociedade deixa de ser sustentável quando suas instituições já não funcionam para todos, mas apenas para os poderosos, quando a justiça social não é realizada e as relações entre as pessoas são marcadas pela violência.

Quais as consequências de uma sociedade não sustentável?

LB: No seu extremo, uma sociedade deixa de ser sustentável quando ela não consegue mais alimentar sua população e oferecer os serviços básicos que tornam a vida social possível sem desagregação. A atividade irresponsável humana não se preocupou em garantir a sustentabilidade da natureza e da Terra como um planeta vivo. Por isso que a resposta é o aquecimento global e os eventos extremos, como secas prolongadas de um lado e enchentes devastadoras do outro. Ecossistemas inteiros estão ameaçados e quase 60% dos territórios estão sob risco de desertificação. Tais fenômenos desastrosos revelam que não houve preocupação pela sustentabilidade em todos os níveis.

Como a espiritualidade pode contribuir para o cuidado com a Terra?

LB: A espiritualidade nos faz cuidadores da natureza, solidários, compassivos, amorosos e justos. São bens intangíveis que não se encontram no mercado nem nas bolsas. Seu lugar é o coração, que é a sede da ética, do amor e da espiritualidade. É pela espiritualidade que o ser humano se dá conta de que não vive só neste mundo, errante e sem sentido. Uma força amorosa e poderosa o sustenta e o conduz ao que nós chamamos Deus. Abrir-se a Ele alimenta os valores e torna a vida neste planeta digna de ser vivida na convivência com os outros e com os demais seres da comunidade de vida. Creio que a intenção originária de Jesus foi essa: ensinar-nos a viver com amor, solidariedade, compaixão e cuidado com todas as coisas numa completa abertura ao Pai de infinita bondade.

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