Desde o seu surgimento, o ser humano busca respostas para muitas dúvidas sobre o transcendente. Um destes questionamentos é a respeito da vivência da espiritualidade. Para esclarecer a temática, a equipe de Comunicação Institucional do Grupo Marista convidou o Frei Clodovis Boff, teólogo e professor do curso de Pós-Graduação em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Na entrevista ele define o que é espiritualidade e, especificamente, o que é espiritualidade cristã; a relação entre a espiritualidade e sentido de vida e, por fim, como podemos viver a espiritualidade na correria do dia a dia. Confira.

Como podemos definir, de modo geral, a espiritualidade?

A espiritualidade tem a ver com interioridade. Podemos defini-la como vida interior. Hoje se fala muito em ter uma subjetividade viva, rica e iluminada. Isso é pensar no eu interior no nível psicológico. Ter as emoções integradas e estáveis faz parte da espiritualidade, mas não é realmente o seu núcleo profundo. Além desta faixa psicológica do nosso eu, há o espírito. É o lugar da liberdade, da consciência, dos projetos de vida, das grandes intuições da existência. É ali que está a espiritualidade. Ela deve ser cultivada, cuidada e nutrida. Para viver profundamente a espiritualidade é necessário ter uma fé viva, que sente o divino ou o transcendente muito próximo de si. Devemos lembrar que a espiritualidade não é um sentimento espiritual, ou simplesmente participar de uma missa, ouvir as palavras do Papa; não é uma emoção passageira. Se você mantém uma fé constante, se você está conectado com o transcendente de maneira profunda, pode-se dizer que está vivendo a espiritualidade. Como diz Santa Teresa: você vive a espiritualidade “com a fina ponta da alma”.

O que é Espiritualidade cristã?

A espiritualidade cristã é absolutamente sui generis. Não se pode colocá-la ao lado de uma espiritualidade budista, hinduísta, krishnaísta ou uma espiritualidade espiritista. A espiritualidade cristã está toda centrada na graça de Deus, na iniciativa de Deus, na primazia de Deus. É Deus que vem a você. Não é você que vai a Ele. As religiões, como diz Paulo VI, são os braços do homem levantados para o eterno, pedindo que Ele se manifeste, pedindo que Ele nos salve. O cristianismo é o braço de Deus para nos aconchegar, para nos acolher, para nos salvar. O Papa Bento XVI na primeira encíclica Deus Caritas Est definiu o cristianismo de uma maneira muito precisa. Ele diz que o cristianismo não é uma ética, não é o fazer bem ao próximo, não é uma visão do mundo, um dogma ou uma doutrina. Para ele, cristianismo é o encontro pessoal com Cristo. São João diz que Deus nos amou primeiro na primeira carta dele e São Paulo nos diz que antes da criação do mundo, Deus já nos escolheu para sermos filhos dele. Ele tem a primazia. A espiritualidade é deixar-se encontrar por Deus, é deixar-se amar por Deus, é deixar-se abraçar por Deus.

Na sua opinião, qual é a relação entre espiritualidade e sentido de vida?

Quem tem Deus tem um sentido de vida. Quem não tem Deus tem apenas alguns sentidos fragmentários, como casar, ter uma profissão, ter um trabalho social ou com o meio ambiente. São causas válidas, porém todas estas causas, a morte leva. Se a vida não tem uma transcendência, se você não tem um Deus, você acaba naufragando. Só quem tem realmente uma espiritualidade, uma visão transcendente da vida é que dá um sentido global, total e satisfatório de vida. Quem não tem Deus encontra sentido em algumas coisas, mas a vida como um todo não tem sentido e estas coisas todas acabam na hora da morte. Para dar o sentido profundo à vida, a espiritualidade deve ser também vivida profundamente. Eu tinha um amigo que era poeta. Um dia ele descobriu que estava com câncer e teria pouco tempo de vida. Decidiu então publicar alguns poemas num livro intitulado “Os últimos cantos”. Ali ele define o que é a morte. Ele diz: morrer para mim é sentir o quanto é forte o abraço de Deus, porque mais do que esperar, eu sou esperado. O homem que tem a morte escrita no seu corpo e que chega a esta conclusão é um homem de fé, que realmente deu sentido à sua vida.

Como podemos dizer as nossas experiências espirituais, qual a linguagem que devemos utilizar para isso?

Devemos dizer as nossas experiências espirituais pelo testemunho. Quem pode falar de Deus realmente é quem experimentou. É como Jesus que disse: quem esteve no céu sabe o que se passa lá. Eu que estive no seio do pai, posso saber quem é o pai, por isso vos comunico. Jesus teve uma experiência com o pai antes de nos dar a conhece-lo. Ele viveu em comunhão com o pai. Santa Teresinha, Santo Inácio, São Vicente, Madre Teresa, Irmã Dulce, todos eles podem falar de Deus, porque experimentaram Deus; viveram com ele, em comunhão. O testemunho destas pessoas é comunicável. De nada adianta um padre falar de Deus a partir dos livros que leu, de algumas referências que pegou na Internet, nos dicionários, nos manuais. O povo sente que ele não está envolvido, que está falando “da boca pra fora”. Henri Newman, um dos maiores teólogos do século XIX, diz que só o coração pode falar ao coração. Hoje em dia buscam-se as técnicas midiáticas modernas, músicas, gestos, luzes, som, apelos emocionais para falar de Deus. Estas linguagens são importantes na adoração. No entanto, o mais importante é tocar o coração em profundidade. Disse um poeta: brilhe para iluminar, arda para aquecer. Esta é a espiritualidade que comunica.

Existe alguma diferença entre espiritualidade e mística?

De modo geral, não há diferença entre espiritualidade e mística. O uso da palavra como espiritualidade é de 1700 pra cá. Antes os padres da Igreja só falavam em mística no sentido de viver a fé. É algo correlato ao mistério do Cristo que nos ama, que nos acolhe e nos acolhendo nos torna místicos. O Catecismo da Igreja Católica recupera o seguinte sentido: mística é viver o mistério de Cristo através dos mistérios sacramentais, sobretudo a missa, para vivermos o mistério trinitário em Deus. Ela recupera o sentido da mística como uma fé viva; como a espiritualidade. Há um sentido técnico de mística, um pouco mais restrito, que considera que os místicos são aqueles que vivem de maneira profissional, como os monges, as carmelitas. Eles vivem intensamente, dando testemunho ao mundo, em uma experiência profunda e muitas vezes com epifenômenos, de audições, visões e fervor. Quando perguntaram ao Papa Bento XVI se ele era místico, ele negou. Disse que era um cristão que procurava viver a sua fé da melhor maneira possível. Disse que era mais um professor. Quando ele se aposentou passou a viver ajudando a igreja com a sua oração e com estudo. Ele vive uma experiência profunda de espiritualidade desta forma, mas não se considera um místico. Em um sentido amplo, a mística é o mesmo que espiritualidade. No sentido mais específico ou técnico, é uma referência aos profissionais.

Por fim, como é possível viver profundamente a espiritualidade na correria do dia a dia?

Muita gente busca hoje uma experiência do divino, do transcendente. Há um interesse muito grande, uma sede de Deus. Eu dou algumas sugestões para viver a experiência de fé, uma mística ou espiritualidade. A primeira é ler os textos sagrados, mas não uma leitura intelectual ou teórica. Trata-se de fazer uma leitura orante, para descobrir quem é Deus. A segunda é oração. Para conhecer Deus é preciso ter uma familiaridade ou intimidade com Ele. A oração é comunhão com Deus. A terceira sugestão é bem simples. É uma tradição do oriente, mas que está bem forte no ocidente, que é a repetição de palavras sagradas. Deve-se repetir lentamente, como quem degusta um caramelo. Pode-se dizer: “Senhor tende piedade de mim”, “O meu auxílio está no nome do Senhor” ou qualquer outro versículo de um salmo. Isso é muito simples, pois você pode fazer em casa, indo pro trabalho, no trânsito, quando está limpando a casa, em qualquer hora e em qualquer lugar. Assim você mantém uma relação com o divino; você está plugado a Deus e isso te ilumina, te alimenta, te fortalece. Isso vai te espiritualizando.

Frei Clodovis Boff é teólogo e professor do curso de Pós-Graduação em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.