Quem vê o colaborador Altieres Frei em suas atividades diárias com os adolescentes que convivem no Centro Social Marista Propulsão, não imagina a trajetória de vida que ele teve até chegar na direção da unidade. “Nasci na zona leste de São Paulo e venho de uma realidade bem humilde”, diz. Ele teve a sorte de ter pais que, embora tivessem estudado somente até o “primário”, sempre incentivaram o filho a ir além na escola.

Foi significativo para Altieres perceber a importância que seus pais davam ao estudos. Ele percebia isso nos pequenos gestos. “Minha mãe vivia comprando fiado materiais escolares na lojinha do Sr. Fernando e não hesitava em ir até a escola quando chamada pelo meu comportamento”, argumenta.

O trabalho sempre foi uma necessidade para a família de Altieres. Ele não esquece dos diversos empregos que teve antes de entrar para a faculdade. “Foram quatro anos trabalhando no Mc Donald’s, um tempo como auxiliar de escritório, office boy e operador de radiochamada”, diz. Neste último emprego, ele ficou por mais de 2 anos e, como trabalhava 6 horas, conseguia se dedicar ao cursinho pré-vestibular comunitário (Poli-USP).

Os professores do cursinho proporcionaram a ele uma abertura cultural e foi neste período que pôs na cabeça que iria cursar faculdade em uma universidade pública. Passou em Psicologia pela UNESP. Decidiu fazer este curso para que pudesse “abrir as portas da percepção”, parafraseando A. Huxley. Queria também fazer algo importante para a sociedade. O curso era em período integral e Altieres só permaneceu estudando devido às bolsas de estudo que lhe foram ofertadas.

Após a conclusão da graduação, ele fez aprimoramento profissional em Saúde Mental e Saúde Coletiva, trabalhou em São Paulo como professor em escolas estaduais, atuou como educador social com população de rua e ainda dedicou-se um tempo a CAPS. Após este período de atuação profissional, foi estudar clínica psicanalítica e fazer uma especialização em “Semiótica Psicanalítica e Clínica da Cultura”, pela PUC-SP. Mais tarde, fez Mestrado em Psicologia Clínica na PUC-SP e atualmente faz doutorado na USP, na Faculdade de Saúde Pública, pesquisando dispositivos de (re)inserção social para adolescentes.

Os conteúdos adquiridos no doutorado acabam refletindo no trabalho realizado no Propulsão, uma vez que a unidade apresenta uma abordagem que tem um componente humanitário muito importante de acolhimento a quem optou ou não conseguiu manter-se em abstinência. “Esta abordagem intitulada redução de danos dialoga muito com os preceitos éticos de uma sociedade igualitária e libertária”, diz. Altieres acredita que com o Propulsão, ele e sua equipe estão indo, com Maria, depressa às novas terras, conforme orienta o XXI Capítulo Geral. Mas os desafios não são poucos!

A unidade ainda é pedra bruta que será lapidada com calma, paciência e firmeza até que se transforme em uma pedra valiosa e brilhante, que encherá a vida de muitos adolescentes de esperança. “Nós sabemos que não basta apenas atender os adolescentes. É preciso mudar o mundo”, afirma.

Altieres e sua equipe estão atentos para a “torneira invisível” que deixa jorrar miséria e segregações que acabam culminado com o envolvimento das juventudes no tráfico e com o uso abusivo de álcool e outras drogas. “O foco está na Propulsão criativa para tornar o Centro Social um modelo replicável de dispositivo de (re)inserção social para adolescentes”, finaliza.