Na quarta-feira, 11, a Católica de Santa Catarina em Joinville foi palco do Café Filosófico, promovido pelo Instituto Ciência e Fé da PUCPR. Na oportunidade, aconteceu um bate-papo com sobre o tema “Preconceito e intolerância: suas raízes, seus efeitos e seus antídotos” com a renomada historiadora Mary Del Priore.
O evento foi mediado por Fabiano Incerti (diretor do Instituto Ciência e Fé da PUCPR) e José André de Azevedo (gerente executivo da área de identidade da PUCPR). A iniciativa foi realizada na área de convivência da unidade e contou com um grande número de participantes.
Confira, na entrevista a seguir, entrevista concedida por Mary Del Priore sobre o assunto.

– Frequentemente ouvimos falar de casos de racismo e preconceito na mídia, que têm atingido tanto pessoas famosas quanto anônimas. Na opinião da senhora, o brasileiro é preconceituoso?
Mary del Priore – Eu acho que todos nós temos preconceito de ter preconceito, alguém já disse isso e eu repito. Nós sempre ficamos muito constrangidos de manifestar nossos preconceitos porque temos uma população extraordinariamente mestiçada. O Brasil tem 48% da sua população de pardos, 42% de brancos e 8% de negros, o que significa que uma série de obstáculos foram vencidos para nós termos “pardizado” a nossa sociedade. O que é interessante é que nós deixamos de ter preconceito racial, com aquele peso do “racialismo” do século 19, para hoje declinarmos os nossos racismos ou as nossas intolerâncias através das diferenças culturais.
Há mesmo quem diga que os grandes choques que teremos daqui para frente, civilizacionais, serão choques baseados em diferenças culturais. Eu mencionava hoje para professores um debate de feministas onde tinha feminista francesa islâmica a favor do véu e a feminista francesa islâmica contra o véu.
Você começa a ter tantas declinações que fica difícil atender todas as demandas de todos os lados. Esse é o grande impasse que nós vamos ter: não se falar mais em racismo, mas se falar em racismos, com “s”, intolerâncias com “s”, que vêm aumentando.
 
– A senhora acredita que a rede social está aumentando essa intolerância ou somos nós que estamos percebendo mais esse problema por causa das redes sociais?
Mary – As duas coisas. A rede social é uma praça pública onde você pode ir, gritar, fazer o que você quiser sem maiores consequências. E, às vezes, é ali que as pessoas expressam seus verdadeiros fantasmas, ódios ou carências.
Estamos em um momento muito sensível, não só no Brasil, mas no mundo todo, com as “fake news”, o acirramento de tensões internacionais, o erguimento de muralhas em partes do mundo onde você jamais imaginou que haveriam muralhas – leste europeu, Hungria, Polônia -, a volta dos radicalismos e do antissemitismo em parte da Europa. Há um Estados Unidos cada vez mais antilatino, antinegro e antiasiático.
Quem lê o livro “Fogo e Fúria”, recentemente publicado sobre como se consolidou a campanha do governo Trump, percebe que os Estados Unidos realmente estão apostando de maneira silenciosa no supremacismo branco, uma coisa inimaginável. Há um clima no mundo de incompreensão. Então as pessoas precisam se acalmar, se pacificar, e, muitas vezes, a rede social, o grito na praça, serve para isso, mas não leva às mudanças comportamentais que são tão importantes.

– O que leva às mudanças comportamentais que poderiam diminuir o preconceito e a intolerância?
Mary – Basicamente educação. Pessoas educadas pensam, têm consciência, refletem, não agridem impunemente, têm argumentos, querem trocar, dividir, compartilhar. Educação é a base de novos comportamentos, e certamente o rompimento com o consumismo excessivo. O que vem acontecendo há 30, 40, 50 anos é que as pessoas acham que viver é sinônimo de consumir. Aí a vida fica realmente num vazio muito grande, perdem-se os valores. As pessoas acham que resolvem seus problemas indo num shopping center, que é essa grande catedral do consumo.
A busca de uma interiorização, de um equilíbrio, de alma, de olhar o outro nos olhos, de escutar, isso tudo que fazia parte de valores que eram, em parte religiosos, em parte sociais, que mantinham uma certa harmonia social, e que foram quebrados. Essa sofreguidão do consumo, do individualismo, a solidão nas grandes cidades, a desestruturação familiar, quer dizer, tem um rol de problemas que estão agravando essas intolerâncias.

– Numa entrevista recente a senhora disse que “a mulher é vítima do seu próprio machismo”. A senhora percebe o machismo muito presente ainda hoje nas relações sociais e de trabalho?
Mary – Eu nunca fui vítima do preconceito masculino. O que eu acho é que está faltando as feministas investigarem com mais atenção a violência de mulheres contra mulheres. No ambiente de trabalho, muitas vezes uma mulher é mais vítima de outras mulheres do que dos homens.
O que falta investigar é a violência em casa, de mulheres jovens contra mulheres velhas, violência de mães contra filhas. Lembro sempre, relativizando tudo, que uma sociedade machista não é só machista com a mulher, é machista com o homem também. Porque a sociedade exige do homem uma performance de herói, uma virilidade de provedor, de enriquecimento, de cuidado que, muitas vezes, ele não tem condições de dar.
Nunca antes se viu na televisão brasileira tantos anúncios sobre virilidade, o que significa que está se cobrando do homem também um papel de macho que as feministas estão discutindo. Por isso é importante convidarmos os homens a discutirem a questão do machismo conosco, pois eles são igualmente vítimas.