Maria Clara Lucchetti Bingemer redigiu o prefácio da publicação Mística, Sabedoria e Autoridade no Século XIX –
Estudo sobre o IRMÃO FRANCISCO (Gabriel Rivat).

Leia abaixo:

A vida e a obra do Irmão Francisco Rivat nos põem diante daquilo que hoje os estudos da teologia e da espiritualidade identificam como “mística do cotidiano”. Pacificamente ativo, buscava, no entanto, sem cessar a união com Deus a fim de encontrar sua vontade e praticá-la. Nesse sentido se alinha com a vida de muitos outros grandes místicos da história do cristianismo. E por isso mesmo configura-se como um testemunho e um exemplo que pode estimular a vida cristã de muitos homens e mulheres de hoje, em plena secularização e no coração da pós-modernidade.

O grande filósofo e teólogo espanhol Juan Martin Velasco diz: “Parece-me que a vida das grandes figuras da fé, lidas da perspectiva da experiência de Deus que elas transmitem, juntamente com os seus escritos e o maior ou menos vigor com que o expressam, poderiam colocar diante dos olhos das pessoas de fé dos nossos dias, atraindo para as nossas consciências, um caudal fresco, copioso de vida teologal, capaz de remediar a secura de vida interior de que padecem muitos cristãos nesta época inclemente para o elemento místico – no sentido mais nobre – da nossa vida cristã”.
O livro que o leitor tem em mãos apresenta sob diversos ângulos e perspectivas a pessoa deste cristão consagrado, marista, que viveu intensamente a presença de Deus em seu cotidiano e que ocupou cargos de responsabilidade na congregação religiosa que era a sua. Foi o primeiro conselheiro do fundador Marcelino Champagnat, realizou estudos completos de medicina para se tornar enfermeiro a pedido do mesmo fundador. Foi secretário de Champagnat, até ser eleito Diretor Geral e finalmente Superior Geral da congregação.
Aparentemente sua vida se mantém em diapasão médio e sem destaque dentro do conjunto do mundo e da Igreja onde vivia, no século XIX. Porém seus escritos deixam perceber um homem de Deus, com profundas experiências de Deus, atingindo mesmo estágios de união mística análogos aos que se encontram em outros santos da Igreja católica, como Inácio de Loyola, Francisco de Sales ou Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face. Igualmente faz com que o Irmão Francisco se alinhe ao lado de outros grandes espirituais de sua época, igualmente centrados na devoção ao coração de Jesus, que marcou bastante a espiritualidade daquele período do século XIX. São eles: Claudio de la Colombière, Marguerite Marie Alacocque, Joseph de Galiffet entre outros.

É de notar igualmente que os textos místicos do Irmão Francisco têm forte acento mariano, mostrando mais uma vez a fidelidade deste irmão à dupla devoção que marca a Igreja de sua época em seu país, a França: a devoção ao coração de Jesus e de Maria. E igualmente a fidelidade ao carisma de sua congregação: “A Jesus por Maria”.
Com esses escritos inspirou e guiou os irmãos de sua congregação na direção de uma sempre maior docilidade e disponibilidade para realizar a vontade de Deus em qualquer circunstância. E o livro que ora prefaciamos pretende valorizar a inestimável contribuição dada por este irmão ao carisma da congregação, verdadeiro tesouro do Patrimônio Espiritual Marista. O livro é, pois, um projeto constitutivo do Laboratório de Estudos deste patrimônio e tenciona tornar cada vez mais conhecido e aprofundado o carisma de Marcelino Champagnat e seus primeiros seguidores dentro da congregação e fora dela, dentro da Igreja e fora da mesma. Sua abordagem é interdisciplinar, o que muito enriquece a obra e seu alcance.

Assim, já no PRIMEIRO CAPÍTULO do livro, de autoria de Ivo Antonio Strobino, ESTUDAR O IRMÃO FRANCISCO, vemos uma descrição metodológica do projeto do qual o livro é um dos primeiros e maduros frutos. O capítulo, escrito com precisão e preocupação metodológica rigorosa, situa o leitor no conjunto da obra, permitindo-lhe por ela avançar com segurança e entusiasmo. A comparação deste processo de pesquisa e aprofundamento com a parábola da mulher que encontra a dracma perdida no Evangelho de Lucas 15,8-10 é feliz e faz desejar o que ainda virá com o encontro de outras “moedas”, pérolas preciosas no aprofundamento deste carisma tão importante na Igreja do nosso tempo.
O Irmão André Lanfrey, já citado no primeiro capítulo, é autor do SEGUNDO CAPÍTULO: IRMÃO FRANCISCO: UMA CRONOLOGIA COMENTADA. Irmão da província de Hermitage, na França, é grande especialista nos assuntos históricos e patrimoniais da congregação. Trata-se, portanto, de pessoa autorizada e competente para apresentar biográfica e cronologicamente o Irmão Francisco ao público mais extenso que terá acesso ao livro. Ali vemos que o homem que se tornaria depois um místico de grande profundidade é filho da Revolução Francesa e viveu os frutos do espírito anticatólico que campeou na Franca no final do século XVIII. Sua pessoa desperta a atenção do fundador Marcelino Champagnat que o recebe na Congregação da qual posteriormente será diretor e superior geral. O autor mostra como a mística do Ir. Francisco vai ajudando-o a ter intuições luminosas quanto aos destinos da congregação e a tomar ou ajudar a tomar decisões acertadas. O irmão Lanfrey celebra o livro que realiza uma pesquisa sistemática e de qualidade sobre os escritos do irmão Francisco.

O TERCEIRO CAPÍTULO, de autoria de Antonio Estaún tem como título CONCLUIR A FUNDAÇÃO DOS IRMÃOZINHOS DE MARIA. E como subtítulo: DA ELEIÇÃO À DEMISSÃO DO IRMÃO FRANCISCO (1839-1860). Vai mostrando como Francisco assume a responsabilidade de governar a congregação em condições imprevistas e precárias e as razões enigmáticas e misteriosas que o fazem demitir-se do mesmo governo. O autor vai questionando a tese oficial de que o Irmão estava impossibilitado de governar a congregação por motivos de saúde. Na verdade Francisco sonhava com a possibilidade de ter um coadjutor que o ajudasse e mais ampla participação dos irmãos como um todo. Idealiza um novo modelo de gestão, portanto. Apesar disso, a marcha dos fatos o levará à renúncia que o trará de volta ao anonimato e ao cotidiano de simples irmão, sem cargos. Vale a pena ler a leitura espiritual que o autor deste capítulo faz da trajetória do Irmão Francisco nos cargos de maior poder da congregação para finalmente desembocar no caminho da humildade de um homem com qualidades e defeitos, mas sobretudo fiel a Deus e à vocação recebida.

João Luis Fedel Gonçalves escreve o QUARTO CAPÍTULO que mostra o IRMÃO FRANCISCO COMO TESTEMUNHA DA FORMAÇÃO DA ESPIRITUALIDADE MARISTA. O autor apresenta a Francisco como aquele que contribuiu com suas reflexões e escritos para a configuração mais clara e precisa da espiritualidade de Champagnat em tempos ainda muito iniciais e obscuros do caminho do novo instituto. O capítulo tem como objetivo apresentar o resultado da pesquisa dos textos originais oriundos dos Arquivos do Instituto em Roma. Percorrendo vários tipos de escritos desde notas de retiro, confissões, leituras espirituais comentadas ou notas de diários, o capítulo torna possível enxergar como Francisco viveu e legou a sua congregação uma espiritualidade centrada na devoção a Maria, com referência a quem Francisco compreende sua consagração religiosa assim como a do Instituto ao qual pertence. Seus escritos são certamente uma luz que ilumina todos aqueles que nas gerações seguintes a sua vida terão a responsabilidade de sistematizar e estruturar a espiritualidade marista até os dias de hoje.

O QUINTO CAPÍTULO – IRMÃO FRANCISCO: ENTRE A MÍSTICA E A FILOSOFIA – tem como autor Fabiano Incerti. Já desde o início o autor esclarece que, embora o texto tenha cunho filosófico, Francisco está longe de ser um filósofo. O trabalho procura situá-lo em uma tradição místico-ascética de constituição de si mesmo, iniciada nas escolas filosóficas pagãs greco-romanas (p 101). Assim, alinha Francisco não apenas ao lado dos grandes místicos cristãos como Teresa, João da Cruz e Inácio, mas junto a filósofos como Epicuro, Sêneca, Marco Aurélio, Fílon de Alexandria e outros. O autor toma como pano de fundo a bela e profunda de reflexão de Pierre Hadot, Exercices spirituels e Philosophie antique, a fim de compreender melhor Francisco que foi leitor dos primeiros “filósofos cristãos”, como os Padres do deserto. Ressalta igualmente as experiências de Francisco com o Exercícios Espirituais, quando a prática de anotar o que experimenta dá testemunho da tradição onde está inserido como cristão e como religioso. O autor termina sua reflexão erudita e profunda questionando se Francisco pode ser definido como sábio, santo ou filósofo e admitindo ser prematura essa definição. Conclui que, no entanto, tal questionamento não deixa de ser fecundo por ser de difícil resposta.

O SEXTO CAPÍTULO examina a figura do Irmão Francisco pelo olhar das ciências sociais. Com o título UTOPIAS EM CONFLITOS: UMA LEITURA WEBERIANA DO GOVERNO DE GABRIEL RIVAT, o autor Irmão Lucas José Ramos Lopes analisa a vida e a atuação de Francisco (batizado com o nome de Gabriel) a partir dos conceitos de dominação e poder. Esses conceitos crescem e emergem durante o governo do Irmão Francisco com o confronto entre duas utopias: uma comunidade ascética dedicada ao catecismo e às obras de caridade e a configuração que a ordem toma depois, de instituto dedicado à educação e ao ensino. Tomando Max Weber como seu pano de fundo teórico, o autor examina o exercício do governo por parte do Irmão Francisco. E descreve como as duas utopias vão aparecendo no decorrer de sua atuação. O autor reconhece os limites de sua análise, mas por outro lado enfatiza a importância de se enfrentar os conflitos utópicos sobretudo na vida de alguém como o Irmão Francisco.

O SÉTIMO CAPÍTULO, de autoria de Ernesto Siena, intitulado A ESPIRITUALIDADE MARIAL DE IRMÃO FRANCISCO: POTENCIALIZAÇÃO DA HERANÇA FILIAL DO PAI FUNDADOR, se centra sobre a centralidade mariana da espiritualidade do instituto religioso que Francisco abraçou e governou. Historiando a inspiração inicial do fundador e a continuidade da constituição da congregação é examinada pelo autor através dos documentos oficiais e também da teologia, que situa Maria no conjunto do mistério da salvação. O desenvolvimento espiritual do Ir. Francisco, um dos primeiros seguidores de Champagnat, vai mostrar um crescimento de amor e confiança em Maria, inclusive com práticas concretas enumeradas por aqueles que estudaram seus escritos. A pertinência e correção teológicas demonstradas pelo Ir. Francisco residem no fato de que Maria está sempre unida a Cristo e isso se reflete na devoção e na vida deste grande marista.

O OITAVO CAPÍTULO – IRMÃO FRANCISCO E O ATO DE CONSAGRAÇÃO E UNIÃO PERFEITA: A MÍSTICA DA BUSCA CONTÍNUA PELA VONTADE DE DEUS – da autoria de Andreia Cristina Serrato, vai conectar a mística do Irmão Francisco com a espiritualidade inaciana. A autora parte do escrito do irmão mencionado no título e mostra a influência dos jesuítas Galiffet e Saint Jure, propagadores da devoção ao Sagrado Coração de Jesus sobre a mística do marista. A autora analisa vários escritos de Francisco além do central que aparece no título mostrando como a mística do Irmão Francisco é integrada e soma corpo de carne e espírito sem prejuízo nem diminuição de nenhum dos dois. A autora faz ainda uma preciosa análise da atuação de Francisco como enfermeiro que reforça essa sua afirmação. E conclui sua bela reflexão mostrando como o corpo é importante e central na cultura hodierna e como a espiritualidade de Francisco pode contribuir para uma reta compreensão e uma valorização desta dimensão.

O CAPÍTULO CONCLUSIVO – IRMÃO FRANCISCO: UMA PERSONALIDADE MÍSTICA A SER DESCOBERTA – mais breve que os anteriores, é de autoria de André Lanfrey, cuja importância já foi enfatizada aqui. O autor resgata o percurso feito na obra, mostrando como a mística do Irmão Francisco ajuda a perceber e viver a mística do fundador e constrói os primeiros alicerces da mística do novo instituto. Situa ainda a mística do Irmão Francisco e a própria congregação marista dentro do conjunto da igreja como um instituto laico e inegavelmente católico. Segundo ele, tanto o irmão como o instituto são representantes típicos desse catolicismo laico, militante que se desenvolve muito na época em que viveu Francisco. O autor lamenta que com a valorização que traz o Concílio Vaticano II sobre os leigos, essas congregações que abrigam leigos, ou seja, cristãos consagrados, mas não ordenados, não haja conhecido um crescimento, mas ao contrário, uma grande atrofia. E ele deseja que o percurso do Irmão Francisco possa contribuir para que novas sínteses dos carismas leigos possam encontrar seu caminho nessa época pós-conciliar que vivemos.

RESTA-NOS CONCLUIR que esse livro pode ajudar muito ao desejo expressado por essa conclusão. O laicato na Igreja, seja ele consagrado pelos votos ou não, tem uma missão importantíssima hoje em dia, em que rareiam os ministros ordenados enquanto a Igreja se mostra sempre estruturada sobre a sua primordialidade. Será necessário redescobrir e ampliar os serviços que os carismas e ministérios leigos podem e devem prestar hoje, em um momento tão desafiador da sociedade e da Igreja. Sem dúvida, modelos, exemplos, inspirações como a do Irmão Francisco podem dar uma ajuda preciosa para que isto aconteça. Portanto, um livro como este que temos o privilégio de poder ler, é um instrumento de trabalho essencial para um maior conhecimento e aprofundamento nesta matéria por parte de toda a comunidade eclesial.