[…] compreender, perdoar, acompanhar, esperar e, sobretudo, integrar. Esta é a lógica que deve prevalecer na Igreja, para fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais. (n.312)

Foi publicada, no dia 8 de abril, a Exortação Apostólica pós-Sinodal do Papa Francisco sobre a família. Amoris laetitia, a “Alegria do Amor”, é um texto de nove capítulos no qual o Santo Padre recolhe os resultados de dois Sínodos dos Bispos sobre a família, ocorridos em 2014 e 2015, citando anteriores documentos papais, contributos de conferências episcopais e de várias personalidades.

É uma Exortação Apostólica ampla com mais de 300 parágrafos e que nos primeiros 7 evidencia a plena consciência da complexidade do tema. Em particular, o Papa escreve que, para algumas questões ”em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De fato, “as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral […], se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”. (n.3)

Trata-se de um documento ao estilo de Francisco: pastoral, inclusivo e misericordioso. Reafirma a todos o valor insuperável da família:

A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja. Apesar dos numerosos sinais de crise no matrimônio o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens, e isto incentiva a Igreja. Como resposta a este anseio, o anúncio cristão sobre a família é verdadeiramente uma boa notícia. (n.1)

A Exortação, no que tange a ação pastoral com os casais divorciados que constitui uma segunda união, afirma:

Quanto às pessoas divorciadas que vivem numa nova união, é importante fazer-lhes sentirque fazem parte da Igreja, que não estão excomungadas nem são tratadas como tais, porque sempre integram a comunhão eclesial .Estas situações exigem um atento discernimento e um acompanhamento com grande respeito, evitando qualquer linguagem e atitude que as faça sentir discriminadas e promovendo a sua participação na vida da comunidade. Cuidar delas não é, para a comunidade cristã, um enfraquecimento da sua fé e do seu testemunho sobre a indissolubilidade do matrimônio; antes, ela exprime precisamente neste cuidado a sua caridade. (n.243)

Ainda ao tratar das situações chamadas “irregulares”, afirma o documento:

[…] a Igreja deve acompanhar, com atenção e solicitude, os seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e extraviado, dando-lhes de novo confiança e esperança, como a luz do farol de um porto ou duma tocha acesa no meio do povo para iluminar aqueles que perderam a rota ou estão no meio da tempestade. Não esqueçamos que, muitas vezes, o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha. (n.291)

Na apresentação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, na sala de imprensa do Vaticano, o cardeal austríaco Christoph Schönborn afirmou que há uma clara mudança na linguagem dos documentos oficiais da Igreja. Algo está mudando no discurso da Igreja. Sobre essa afirmação, corrobora o pensamento do Papa Francisco:

Duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: marginalizar e reintegrar. […] O caminho da Igreja, desde o Concílio de Jerusalém em diante, é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração. O caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém; derramar a misericórdia de Deus sobre todas as pessoas que a pedem com coração sincero […]. Porque a caridade verdadeira é sempre imerecida, incondicional e gratuita. Por isso, temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição. (n. 296).

Se pudéssemos destacar um termo chave dessa Exortação ele seria sem sombras de dúvida a palavra integração. É sob a lógica da integração que o Papa Francisco afirma estar a chave do acompanhamento pastoral. Por essa lógica da integração ninguém deve sentir-se excomungado, pois a todos a Igreja se apresenta como uma mãe que acolhe seus filhos e sempre os encoraja no caminho da vida e do Evangelho (Cf. n. 299).

É no espírito do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia que se deve entender algumas afirmações fortes desse documento:

[…] sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia, dando lugar à misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma; mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade: uma Mãe que, ao mesmo tempo que expressa claramente a sua doutrina objetiva, não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada. (n.308).

Estamos diante de um documento pastoral que servirá em muito para reafirmar o valor intrínseco do matrimônio cristão, assim como o cuidado e a misericórdia na pastoral com os casais “irregulares”.

por Ângelo Alberto Diniz Ricordi 


Exortação na íntegra: vatican.va